quarta-feira, 17 de abril de 2013

Aniversário de 1700 anos do Edito de Milão

Fragmento de uma estátua de Constantino,
 hoje nos Museus Capitolinos 
Um importantíssimo aniversário para a história do cristianismo, comemorado em fevereiro deste ano, passou praticamente desapercebido. Trata-se do aniversário de 1700 anos do famoso Edito de Milão, promulgado em fevereiro de 313 pelo então imperador romano do Ocidente, Constantino, e por Licinius, que na época governava a região dos Balcãs. 

Dois autores contemporâneos de Constantino falam do Edito, Lactâncio, em sua obra intitulada De Mortibus Persecutorum, e Eusébio de Cesareia, em sua História Eclesiástica. Na obra de Lactâncio o edito é apresentado como uma carta escrita por Licinius e enviada aos governadores das províncias do Oriente. 

Em termos práticos, o Edito de Milão fez com que o cristianismo se tornasse uma religião tolerada, permitida, acabando oficialmente com as perseguições e martírios. É particularmente impressionante notar que esse edito tenha sido promulgado somente alguns anos depois da deflagração de uma das mais violentas e sangrentas perseguições da história do cristianismo, a famosa perseguição de Diocleciano (no início do séc. IV). A perseguição de Diocleciano foi tão violenta e marcante que até hoje a Igreja Copta baseia seu calendário no início do reinado desse imperador, contando os anos a partir da "era dos mártires". Sem contar os cismas que ela causou, como o chamado cisma Meliciano, mas isso é assunto para outro post.    

Nunca é demais lembrar a importância do Edito de Milão na história do cristianismo. Trata-se de um verdadeiro marco, um evento que inaugura um novo período na história da Igreja. Na historiografia sobre o cristianismo antigo, por exemplo, adota-se o Edito de Milão - juntamente com o Concílio de Niceia (325) - como uma espécie de marco institucionalizador da Igreja. 

O cristianismo ainda teve de esperar até o fim do século IV para se tornar a religião oficial do império, mas o Edito de 313 provocou diversas mudanças no cristianismo e em suas relações com o Estado. Se antes o cristianismo tinha de lidar com as perseguições institucionais, a partir de 313, teve de começar a lidar com a ingerência dos imperadores nos assuntos doutrinais e eclesiásticos. A famosa crise ariana provê bons exemplos de quão longe a ingerência do império romano tentou chegar: imperadores exilando bispos e "nomeando" pessoas de sua confiança para as dioceses importantes ou ainda tentando meter o bedelho em decisões conciliares. A Igreja não deixou por menos e muitas vezes enfrentou o poder imperial para afirmar categoricamente que o poder secular não deveria se meter em assuntos doutrinais e eclesiásticos. O maior exemplo disso foi, sem dúvida, Atanásio de Alexandria, que chegou a ser exilado 5 vezes durante seu episcopado por 5 imperadores diferentes.

Portanto, se engana quem acha que o Edito de Milão trouxe um período de paz para a Igreja da antiguidade. Alguns problemas sumiram, outros apareceram.

Se engana também quem acha que o Edito de Milão sepultou de vez o "paganismo". Sabe-se que muitos adeptos das religiões pagãs continuaram a praticar seus cultos até meados do séc. V, e talvez mesmo depois disso. Não se pode deixar de mencionar, por exemplo, o imperador Juliano, o apóstata (imperador entre os anos de 361-363), da própria dinastia de Constantino e que, tendo nascido no seio de uma família cristã, renegou a fé e tentou restaurar os cultos pagãos.    

Mas como dito acima, não se pode deixar de considerar a importância desse marco - o Edito de Milão - na história do cristianismo. 

É uma pena que este aniversário não esteja sendo lembrado. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Quem foi São Valentim?

Hoje, dia 14 de fevereiro, a liturgia latina comemora São Valentim. Nos países de cultura anglo-saxônica, essa data equivale, grosso modo, ao nosso dia dos namorados. Os casais aproveitam para comemorar com presentes e bilhetes. A comemoração acabou por se estender também à amizade, e muitos chamam o dia de hoje de "dia da amizade".
Devido à influência da cultura estadunidense em todo o mundo, o dia de São Valentim acaba sendo lembrado em vários outros lugares, inclusive no Brasil.

Vale lembrar que São Valentim é o padroeiro dos casais.

Mas quem foi São Valentim?

Pouco se sabe sobre esse santo, e aí que o assunto se torna de interesse desse blog, já que São Valentim viveu e foi martirizado na antiguidade.
As fontes que relatam a vida e o martírio de São Valentim são bastante tardias e pouco confiáveis, e até mesmo lendárias, mas isso não invalida sua existência ou seu martírio. Uma dessas fontes é conhecida como Lenda Áurea e foi redigida no séc. XIII.

O que se sabe é que Valentim foi provavelmente sacerdote em algum lugar da Itália, na segunda metade do séc. III e que foi martirizado.
A data tradicional de seu martírio é o ano de 273. Mas, segundo a Lenda Áurea, ele teria sido martirizado no governo do Imperador Cláudio, o Gótico, o que necessariamente dataria sua morte entre 260-270 (período de governo do imperador em questão).

Ainda segundo a Lenda Áurea, Valentim teria conseguido fazer com que o Imperador se interessasse pelo cristianismo, quase lhe convertendo. Ao saber da notícia, um governador armou um complô contra Valentim, que foi preso e confiado aos cuidados de um magistrado. Valentim então curou a filha do magistrado e toda sua família se converteu. Depois disso, Valentim acabou sendo decapitado, o tipo de morte mais comum entre os mártires, segundo os relatos de Martirólogos posteriores.

Outro relato, igualmente lendário, diz que, no tempo de Valentim, o imperador proibiu que casamentos fossem celebrados, para poder enviar mais jovens homens à guerra. Valentim se recusou a obedecer a ordem do imperador e casou vários noivos na surdina. Ao ficar sabendo do acontecido, o imperador mandou prender, torturar e executar Valentim. Talvez essa lenda esteja na origem da celebração de São Valentim como uma espécie de "dia dos namorados".

Alguns defendem que a origem de tal celebração estaria, no entanto, relacionada a festas pagãs de fertilidade e amor, celebradas no mês de fevereiro. Na Roma antiga, por exemplo, o dia 15 de fevereiro era o dia da festa de Lupercus, deus da fecundidade.

O Papa Julio I (Papa entre os anos de 337-352), um dos grandes aliados de Atanásio de Alexandria no Ocidente, construiu uma Igreja em homenagem a São Valentim em Roma.