terça-feira, 14 de maio de 2013

O que você posta nas redes sociais é verdadeiro ou falso?


As redes sociais tornaram-se quase que elemento fundamental da realidade contemporânea. Praticamente todo mundo tem um perfil no facebook, twitter e afins. Além disso, muitos têm usado as redes sociais como seu principal meio de informação. Ao invés de lerem jornais, sejam impressos ou digitais, muitas pessoas acabam lendo quase que somente notícias postadas ou partilhadas nas redes sociais.

O grande problema é que nem tudo que se lê nas redes sociais e internet em geral é verdadeiro e exato. A quantidade de informações, frases e reportagens falsas postadas e partilhadas nas redes sociais é imensa. São frases falsamente atribuídas a personalidades, fotos adulteradas, etc. E eu arriscaria dizer que muito disso se deve à preguiça, já que, hoje em dia, com o Google, ficou muito fácil averiguar a veracidade ou exatidão da maioria das informações. E só para constar, eu mesmo já fiz isso, partilhei informações que depois descobri serem falsas. Espero ter aprendido a lição. 

Enfim, isso acaba acontecendo em todos os domínios e áreas do conhecimento: ciências, política, economia, esporte... não poderia ser diferente no que diz respeito às áreas contempladas nesse blog: Bíblia, cristianismo antigo e apócrifos. Já cansei de ver posts sobre um tal "Pai-Nosso original" escrito em aramaico e encontrado gravado numa pedra na Palestina, por exemplo. Trata-se, obviamente, de conversa para boi dormir. 

Pois bem, a última foi essa foto abaixo; um amigo, viu uma foto sobre a descoberta de um códice bíblico partilhada no perfil de um de seus contatos, me perguntou se a informação era verdadeira. Hoje de manhã, vi uma versão ligeiramente modificada da foto em questão no perfil de outro de meus contatos; a foto que posto aqui, é essa. Foi o que me levou a escrever algo a respeito aqui no blog. Eis a foto:

A descoberta foi, de fato, noticiada por jornais turcos em fevereiro de 2012. Me lembro que o assunto foi comentado por alguns colegas em blogs. Aparentemente, a descoberta foi feita em 2000, em Chipre, durante uma operação policial contra contrabandistas, mas a existência do códice só veio a público em 2012, quando ele foi transferido para um museu.
A descoberta foi igualmente noticiada por vários veículos de comunicação em todo o mundo.

As informações contidas na foto acima são uma espécie de resumo do que foi noticiado. Como era de se esperar, no entanto, as informações noticiadas pela mídia e contidas na foto são, no mínimo, equivocadas. Para começo de conversa, o volume em questão não estaria escrito em aramaico, mas em siríaco. Um erro grave, já que o aramaico falado na época de Jesus desapareceu em meados do séc. II, e o volume seria supostamente do séc. V ou VI. Outras versões da notícia chegavam inclusive a dizer que o Vaticano estaria preocupado com a publicação do volume; mais uma vez, conversa para boi dormir, uma tentativa de tornar a notícia mais sensacionalista e interessante para os amantes de teorias da conspiração.

De qualquer modo, tratar-se-ia de uma descoberta e tanto; seria mais um códice bíblico antigo, menos antigo que outros códices, como o Vaticanus e o Sinaiticus, é verdade, mas mesmo assim bastante importante. Até aí, no entanto, nada fazia desse códice encontrado na Turquia um artefato original e revolucionário, afinal, como dito acima, conhecemos outros exemplos de volumes mais antigos.

No entanto, a segunda versão da foto, a postada aqui, trazia uma informação quente: o codex conteria, além dos textos bíblicos, uma versão do famoso Evangelho de Barnabé, até então, preservado somente em manuscritos bastante tardios, que datam dos séculos XVI e XVIII respectivamente. O Evangelho de Barnabé, um apócrifo obviamente pseudonímico e de composição tardia (certamente composto depois do séc. VII), é conhecido por citar Maomé e apresentar traços da fé islâmica.

Ora, a descoberta de uma versão do séc. V ou VI do Evangelho de Barnabé seria, portanto, revolucionária, já que indicaria que o texto é anterior ao que se imaginava.

Mas é aí que a coisa fica mais interessante ainda. E deixo claro que só descobri isso hoje, fazendo uma breve pesquisa sobre o assunto levantado pela segunda versão da foto, já que as primeiras notícias, que li em 2012, salvo engano, não chegavam a mencionar o Evangelho de Barnabé. Pois bem, reações de estudiosos do siríaco se seguiram ao noticiamento da descoberta e, adivinhem! Sim, trata-se provavelmente de uma falsificação. A mídia, que prontamente noticiou a descoberta, no entanto, calou-se sobre a questão da falsificação......
Qualquer semelhança com o caso do Evangelho da Esposa de Jesus, cuja a possibilidade de falsificação foi igualmente pouco noticiada, é mera coincidência.

Alguns links sobre a questão da falsificação:
http://aina.org/news/2012022916569.htm

http://evangelicaltextualcriticism.blogspot.ca/2012/02/antique-syriac-bible.html


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Marcos, o evangelista

Hoje, dia 25 de abril, a liturgia latina comemora a festa de São Marcos, a quem a composição de um dos evangelhos sinóticos, provavelmente o mais antigo, é atribuída. Marcos também é tido como fundador do cristianismo na África e primeiro Bispo do importante patriarcado de Alexandria. Por essa razão, ele é particularmente venerado na Igreja Copta.   

Não existem informações claras e precisas no Novo Testamento sobre Marcos; ou, elaborando a questão de uma maneira diferente, não existem informações que possam ser seguramente relacionadas a ele (quem ele foi exatamente, informações sobre sua vida, seu lugar e seu papel na nascente comunidade cristã, etc). Chegou-se a sugerir, por exemplo, que ele fizesse parte do grupo de 70 discípulos enviados em missão por Jesus (Lc 10, 1-24). Outros o identificaram com João Marcos, mencionado diversas vezes nos Atos dos Apóstolos (como em At 12, 12, por exemplo).  Há ainda quem diga que ele era o jovem que estava no Horto das Oliveiras no momento da prisão de Jesus (Mc 14, 51). Os exemplos citados acima são, no entanto, apenas hipóteses. 

Já Hipólito de Roma, em sua obra Sobre os 70 Discípulos, distingue Marcos, o evangelista do João Marcos mencionado em Atos. Para Hipólito, o evangelista é o Marcos mencionado em 2Tim 4, 11.

Como era de se esperar, o célebre historiador eclesiástico da antiguidade tardia, Eusébio de Cesareia, também fala de Marcos. No livro 2 de sua História Eclesiástica, Eusébio diz que Pedro, após ter sido preso por Herodes Agripa e libertado milagrosamente por anjos (at 12, 1-19), viajou pela Ásia Menor, indo depois para Roma. Em algum momento dessa viagem, Pedro encontrou Marcos e fez dele seu companheiro de viagem e intérprete. A partir dessa relação teria nascido o evangelho de Marcos. Marcos teria registrado a pregação oral de Pedro e composto o evangelho antes de ir para Alexandria, por volta do terceiro ano do governo do imperador Cláudio (ano de 43). Crê-se hoje, porém, que a data de redação final do Evangelho de Marcos seja posterior a data sugerida por Eusébio: algo em torno do ano 64, após o martírio do próprio Pedro em Roma.

O relato de Eusébio é particularmente importante porque, além de retraçar as origens redacionais, e porque não, apostólicas, do Evangelho de Marcos, documenta a ida do personagem em questão ao Egito. Como dito acima, Marcos é tido como o fundador do cristianismo nesse país - e consequentemente na África - e como primeiro bispo do importantíssimo e influente patriarcado de Alexandria. Ele é, por isso, particularmente venerado pela Igreja Copta. Tradições tardias da Igreja Copta atestam que ele foi martirizado em 68. 

Basílica Copta de São Marcos, no Cairo.