quinta-feira, 5 de setembro de 2013

E a 'Primavera Árabe' faz mais uma vítima: o milenar mosteiro de Santa Catarina é fechado

O Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai
O milenar mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, edificado há cerca de 1500 anos, é a mais nova vítima da chamada 'Primavera Árabe'. O mosteiro foi fechado por questões de segurança.

Como eu havia escrito há algumas semanas aqui no blog, os cristãos coptas têm sido vítimas de perseguição no Egito desde a deposição do presidente Mursi. Como alertado no post em questão, além das perdas humanas, a perda do patrimônio cultural e histórico era uma das preocupações. Mais de 60 igrejas e edificações coptas foram queimadas apenas nas primeiras semanas de ira contra os coptas.

Pois bem, por questões de segurança, para evitar que o mosteiro fosse atacado, queimado e destruído, as autoridades egípcias ordenaram que ele fosse completamente fechado no início do mês de julho. O governo egípcio não fez nenhuma declaração oficial, mas acredita-se que a medida foi tomada devido à tentativa de sequestro de um monge em junho, o que levantou suspeitas de que o Mosteiro pudesse ser atacado. Não há oficialmente nenhuma ligação do ocorrido com os ataques aos coptas desde a deposição de Mursi, mas não se pode deixar de notar que, face á destruição de tantas Igrejas coptas, o Mosteiro de Santa Catarina seria um alvo e tanto.

Famoso, dentre outras coisas, por ter abrigado o célebre codex sinaiticus, o Mosteiro de Santa Catarina recebe milhares de turistas todos os anos e é responsável por fazer funcionar a economia local. Nas últimas semanas, os beduínos que trabalham ao redor do Mosteiro fazendo passeios com os turistas abandonaram ou venderam cerca de 800 camelos; com o fechamento do mosteiro, esses beduínos perderam sua fonte de renda, e, sem renda, não podem comprar comida para seus camelos. Venderam os camelos para comprar comidas para si e suas respectivas famílias.     

Essa não é a primeira vez que o Mosteiro de Santa Catarina fecha suas portas. Nos últimos 50 anos, ele já havia sido fechado 2 vezes: a primeira em 1977, quando o então presidente egípcio, Anwar Sadat, visitou Jerusalém, a segunda em 1982, quando Israel invadiu o Monte Sinai. 


Mais informações sobre a questão podem ser lidas no artigo cujo link posto aqui. Fiquei sabendo do acontecido por meio do amigo Alin Suciu, que, por sua vez, o soube por meio do blog de Jim West:
http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2013/09/st-catherine-shutdown-monastery-sinai-unrest.html

terça-feira, 3 de setembro de 2013

As obras de Gregório Magno

Ícone antigo representando Gregório
no trono papal 
Hoje, dia 3 de setembro, celebra-se no Ocidente a festa de São Gregório Magno, Papa entre os anos de 590 e 604. Seu papado começou no dia 3 de setembro, razão pela qual sua festa é celebrada hoje, e terminou no dia de sua morte, dia 12 de março, razão pela qual ele também é celebrado nessa data.
Ele foi o primeiro Papa vindo de um background monástico, e é um dos 4 grandes Padres da Igreja do Ocidente - juntamente com Jerônimo, Agostinho e Ambrósio. Ele também é Doutor da Igreja.

Gregório Magno viveu numa época na qual a Patrística já começava a viver seu declínio. As grandes controvérsias teológicas dos séculos IV e V já haviam sido resolvidas e os dogmas elaborados pelos 4 Grandes Concílios já tinham se consolidado - mesmo tendo, na maioria das vezes, causado cismas - o que limitava consideravelmente o âmbito das especulações teológicas. Além do mais, o debate intelectual, e consequentemente teológico, entre Oriente e Ocidente, tornou-se raro a partir da segunda metade do séc. V, por conta do desmanche do império romano, mas também devido às incompatibilidades linguísticas: o latim nunca chegou a se firmar no Oriente como língua falada ou escrita e o grego perdeu gradualmente sua importância no Ocidente - o que pode ser evidenciado pelo fato de Rufino de Aquiléia e Jerônimo (final do séc. IV, início do V) serem os últimos Padres da Igreja a escreverem em ambas as línguas.  

Pois bem, poder-se-ia pensar que o fato de Gregório Magno ter vivido em tal época tenha sido uma barreira para sua produção teológico-literária; afinal, como ser um grande teólogo sem ter ao seu redor com quem dialogar, ou sem grandes questões teológicas sobre as quais refletir? 
No entanto, não foi o que aconteceu. A produção teológico-literária de Gregório é a mais prolífica entre os Papas da antiguidade. Se por um lado, questões teológicas de grande profundidade e complexidade não são discutidas em suas obras, sua contribuição homilética é considerável, por exemplo. Sua contribuição para a consolidação da liturgia ocidental é incomensurável, e sua atuação pastoral é igualmente grandiosa. 
Somente nos últimos 13 anos de sua vida, que coincidem com os anos de seu papado, Gregório escreveu mais de 850 Cartas. Dentre os sermões a ele atribuídos que são hoje julgados autênticos,  tem-se 40 sobre os Evangelhos, 22 sobre Ezequiel e 2 sobre o Cântico dos Cânticos.  Não se pode deixar de citar a famosa Magna Moralia - uma espécie de comentário sobre o livro de Jó - os Diálogos e a Regra para os Pastores, obra na qual Gregório fala da essência do trabalho episcopal, contrastando o papel dos bispos como pastores e suas posições nobiliárquicas dentro da Igreja.

Apesar de sua importância para a história da Igreja, há ainda muito a se descobrir e a se pesquisar em relação a Gregório. Esse post, por exemplo, tem como simples objetivo falar brevemente de sua produção teológico-literária. Poderíamos passar semanas aqui falando, por exemplo, das contribuições de Gregório para a liturgia. Quem sabe num próximo post.